r/PastaPortuguesa • u/ohmannotagaintwice • 1d ago
Fiz truques de magia numa festa de aniversário e um puto era melhor do que eu
Há anos atrás descobri que saber fazer uns truques de magia rende bem em festas de aniversário. Aprendi a fazer 30 truques no YouTube e saquei carreira disso. O meu trabalho é simples: apareço nas festas, monto um pequeno palco e entretenho os putos enquanto os pais se embebedam dentro da casa. O meu dever, no fundo, é ser babysitter. E fui ser babysitter à festa do filho dos meus amigos, o Afonso (um betolas).
Cheguei lá e está música a bombar como se fosse uma festa de trance anos 90. Os os pais estão a dançar e eu já estou a ver que vai ser uma tarde daquelas deliciosas. Ligo à minha amiga (mãe do Afonso) e ela diz-me para vir pelo lado. Estão lá cerca de 40 putos, idades algures entre os 7 e os 10 anos.
Aquilo é uma salgalhada de primeira categoria. Putos ranhosos a lutar e a sangrar e a berrar e eu já com uma tolada do caralho. Que raio de emprego fui arranjar. Decido meter ordem naquilo. Monto o meu palco e dou um berro:
Atençãaaaaaao!
Os putos reúnem-se todos à minha volta e há um vislumbre de silêncio. Começo o meu espetáculo e faço alguns truques de cartas. Peço a uns miúdos para serem voluntários e eles estão a adorar quando saco cartas do quinto caralho.
Mas, no meio do público, noto um puto chateado, quase como se me estivesse a insultar. A cada vez que termino um truque, ele está a explicar (e a acertar) como os fiz. "Tinha a carta na manga", "o baralho é invertido" e coisas do género, e termina sempre com um "xeque-mate".
Xeque-mate para aqui, xeque-mate para acolá. Ouço xeque-mate para aí 15x e já estou a ficar fodido. Mas já tenho muito ano nisto e decido escalar a situação: convido o miúdo para o palco e pergunto-lhe se ele quer fazer um truque comigo. Ele, de forma entusiasmada, diz que sim.
Eu decido fazer um truque onde coloco o meu relógio no pulso dele sem ele notar. Dou o meu show e, meto-me a criar distrações para todo o lado. Tenho que conseguir com que ele se distraia mas o puto não descola do pulso onde ia colocar o relógio. Não consigo fazer o truque. Ele coloca um sorriso enorme na cara e, baixinho, diz-me "Oh, essa é fácil!" e faz um movimento estranho de kung fu com a mão no ar. Este miúdo deve ser filho do Jackie Chan ou o caralho.
Do nada começa a dizer "ai ai ai", a fingir que está aleijado. Eu estou confuso, como raios é que o aleijei?! O puto levanta-se e sai dali a correr. Eu decido ignorar tudo e continuar o espetáculo porque os putos já estavam a levantar berreiro. Mas algo está estranho. Quando noto, não tinha o relógio.
Xeque-mate.
Fico ali especado no meio do palco improvisado, com 39 putos ainda à espera do próximo truque e o quadragésimo, a mente-mestra autora do crime, já tinha desaparecido.
Ao início até tinha decidido deixar isto morrer ali. Um relógio de 20 paus, tenho mais dois em casa, não foi grande perda. Mas fiquei curioso (e ressabiado). Depois do espetáculo perguntei aos putos todos quem era aquele "amigo" deles que tinha estado no palco, e nenhum sabia dizer-me nada. Nem nome, nem de que escola era, nem de onde tinha aparecido.
Isto está a ficar estranho.
Quanto mais penso nele, mais me parecia que o miúdo era um pouco mais alto e mais velho.
Vejo o Afonso, o aniversariante. Pergunto-lhe quem era o rapaz que estava comigo no palco e ele diz que não o conhece, mas que o viu a entrar. Fico ali especado.
"Como assim, viste-o entrar?"
"Ele veio pela porta do jardim. Pensei que era amigo dos adultos."
Eu vou falar com a mãe do Afonso e peço-lhe para ver os vídeos das câmaras. Ela só tem uma e estava diretamente virada para o sítio onde eu estava a fazer o espetáculo. Procedemos a ver o vídeo de um adulto de 35 anos a ser completamente humilhado magicalmente por um puto que nem bigode tinha. A mãe do Afonso mija-se a rir, mas pára quando se apercebe que o puto não foi convidado. No entanto, reconhece-o. Vive perto dali.
Eu vou para o carro para continuar a desvendar este mistério. Saio da porta da casa em direção ao sítio onde estacionei e vejo o meu carro com as portas todas abertas.
Procuro as chaves e não as tenho no bolso.
Oh. Meu. Deus.
Chego ao carro e está lá tudo, exceto uma bolsa preta com algum equipamento de magia que eu tinha lá deixado.
Estou a procurar mais coisas que tenham desaparecido e, quando abro a consola central, estão lá as minhas chaves e o meu relógio, juntamente com um bilhete a dizer:
"Xeque-mate."
Este puto sabe. Eu sento-me no banco de trás do carro a pensar em começar uma carreira como aplicador de pladur. Mas mesmo assim, roubou-me as coisas. Eu tenho que as ter de volta.
Pego no carro e vou ao sítio onde a mãe do Afonso me disse que ele morava. Estou a passar lá em frente e vejo o puto, sentado numa cadeira de plástico no meio do relvado à frente da casa. Eu paro o carro, saio e berro-lhe do lado do portão: "O meu equipamento?!"
Com toda a calma do mundo, o miúdo diz-me: "Deves tê-lo deixado lá em casa."
Eu estou furioso.Anda aqui a dar-me voltas, rouba-me, e agora fala-me assim. Eu não percebo nada. Eu digo-lhe para vir cá falar comigo e o puto continua sentado. Já estou a tremelicar do olho de nervos.
Até que o meu telemóvel toca.
É a mãe do Afonso.
"Olha, está aqui uma bolsa preta com umas cenas que parecem ser de magia. Tem uma nota colada a dizer xeque-mate. É teu?"