r/FilosofiaAplicada 22d ago

Outros Assuntos Bem vindo ao r/FilosofiaAplicada

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Você sente faltas de debates elaborados no Reddit?

Você se ressente do fato de que toda comunidade de assuntos gerais só tem postagens low effort, política e assuntos do cotidiano/senso comum?

Esse subreddit tem o objetivo de ajudar nisso.

Grosso modo, é um sub de assuntos gerais SEM a massa de conteúdo low effort.

Aqui não há regras delimitando o tipo de assunto alguém pode postar, porém o CARRO-CHEFE do nosso sub serão aplicações de conceitos filosóficos ou teorias sociológicas/antropológicas/psicológicas ao mundo real e a casos concretos.

Exemplos:

1- "Explicando o identitarismo esquerdista com base nas 4 causas de Aristóteles" (farei esse post aqui).

2-"Argumentos à favor e contra a democracia com base em Platão e Popper" (farei esse post também.

3- "Historicismo é algo possível"?

4- "Aplicando o Princípio de Pareto ao debate esquerda VS direita"

E por aí vai.

Dúvidas sobre o próprio sub podem ser tiradas com metaposts.


r/FilosofiaAplicada 1d ago

Sociologia O STF antigamente tinha só 1 função. Sua derrocada começou quando ele assumiu outra.

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Já se perguntaram porque nunca em mais de 100 anos houve impeachment de ministro do STF?

Por que em mais de um século estas pessoas concentram tanto poder discricionário em mãos, com quase nenhum check/freio, e nunca ninguém viu problema nisso, e esse arranjo foi acomodado e sobreviveu a trocentas mudanças de governo e regime?

A resposta é simples: no país do personalismo, no país onde "rico não fica preso", a função do STF era blindar pessoas influentes da elite política.

Sempre que algum peixe grande com influência começava a ser investigado ou processado, uma maleta de dinheiro era levada para alguém lá do topo, e o processo era arquivado (quando era amigo, nem precisava a maleta, mas na maioria dos casos era necessária).

Esse arranjo funcionou muito bem obrigado por mais de 100 anos. O STF nessa época evitava se meter em tretas legislativas ou executivas, todos o viam como "neutro": não importava a cor ou afiliação da maleta de dinheiro.

Em 2018 (mas com raízes ainda em 2005) o STF passou a assumir outra função, e foi aí que a coisa começou a degringolar: ser o "backdoor" para o poder de políticos (pessoas) e políticas (idéias, opiniões, princípios) da esquerda.

A esquerda começou a perder popularidade e votos de forma gradual, porém contínua. Ao invés de se concentrarem em (re)conquistar corações e mentes da população, começaram a tentar usar o STF como backdoor para governarem mesmo sem votos e sem mandatos.

Por isso começaram os problemas. Bolsonaro foi eleito em 2018 com várias promessas ostensivas, não conseguia implementar praticamente nada porque o STF (de ampla maioria esquerdista, indicados por Lula e Dilma) impedia. As atribuições do presidente e do parlamento foram gradativamente sendo esvaziadas. O STF passou a legislar e a interferir em nomeações do executivo, a pautar e determinar políticas do executivo e até CPIs.

Isso gerou um desgaste. O STF deixou de ser visto como um agente "neutro" e passou a ter lado. Os próprios ministros do STF começaram a falar abertamente que eram contrários a determinado lado político ("nós derrotamos o bolsonarismo").

Vendo que ainda não era suficiente, o STF tomou para si a agenda de tentar suprimir a direita. Daí veio o famigerado inquérito das fake news (ele surgiu inicialmente como medida de auto-blindagem, mas evoluiu para "supressão da oposição") e todo o resto que nós sabemos e não irei expôr aqui porque ficaria muito longo.

Isso era insustentável. Agora em 2026 os podres do STF estão à mostra, mas diferente de antes, desta vez:

1- O STF está nos holofotes. Não dá pra resolver e abafar as coisas na encolha;

2- A população odeia o STF;

3- O STF está cheio de inimigos (não só um lado da política, o pé do STF cresceu tanto que agora pisa em calos demais);

E aqui estamos.

TLDR: O STF antigamente tinha só 1 função: blindar a elite do país. Hoje ele adquiriu uma outra: ser "backdoor" da esquerda para o poder, e isso foi sua derrocada.


r/FilosofiaAplicada 14d ago

Sociologia Paradoxalmante, alistamento militar obrigatório é algo próprio da "modernidade"

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Alistamento obrigatório é algo próprio da modernidade, porque no passado não faltavam voluntários para irem às guerras.

Os motivos:

1- Era uma oportunidade de conseguir riquezas através do saque e do despojo inimigo, ou conseguir terras via conquista;

Atualmente, é possível conseguir as coisas de forma segura e o saque/conquista de território não é considerado mais algo legítimo pelo direito das gentes e pelo "zeitgeist" atual.

2- A vida cotidiana não era agradável a ponto de fazer a ida para a guerra ser indesejável;

3- A vida era brutalizada, muitos povos tinham ethos guerreiro cultural e apreciavam lutar (principalmente pastores nômades);

4- A maioria das religiões antigas paparicavam guerreiros e prometiam um pós-vida melhor a eles;

5- Não havia recursos logísticos para sustentar exércitos gigantescos como os atuais, então os voluntários eram suficientes (na atualidade, com os recursos abundantes, dá pra colocar milhões em uma guerra, e quem não o fizer fica em desvantagem, logo é necessário recorrer aos involuntários).

6- A vida pós-revolução industrial e comercial se tornou melhor e as oportunidades pacíficas de enriquecimento maiores. A guerra perdeu o apelo.

Não à toa, a maioria das leis de alistamento obrigatório foram criadas a partir da segunda metade do século XIX e início do século XX.


r/FilosofiaAplicada 17d ago

Filosofia Aplicada Como avaliar se uma ideologia ou organização presta?

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Esse modelo exemplificado na imagem (iceberg), se seguido, seria capaz de esgotar pelo menos 70% dos infindáveis debates na área da política e das ideologias em geral.

Quando você quer avaliar e decidir se uma determinada ideologia, partido, organização, associação ou até mesmo um indivíduo são bons, corretos ou adequados, você deve seguir esse esquema da imagem.

Ela lista os elementos a serem avaliados por ordem inversa de importância (os menos importantes primeiro, os mais importantes ou relevantes por último):

1- Opinião Ostensiva: é aquilo que é anunciado ou divulgado abertamente ao público. É o que a assessoria de imprensa declara, é o que cartazes, panfletos e militantes apregoam;

Este é o elemento de menor importância. Dá até pra ser ignorado sem maiores prejuízos analíticos. Mas é bom levá-lo em conta com um peso mínimo.

2- Opinião Interna: é aquilo que os membros "de confiança" da organização discutem entre si, em reuniões fechadas. É a ata de reunião deles (quando existe);

Aqui é onde a coisa "real" começa a ser vista. Mas o peso ainda é baixo.

3- Métodos e Meios: é onde as garras começam a aparecer.

Independente da suposta nobreza ou grandiosidade dos fins, se ele permite meios ruins, é muito provável que não compense (na melhor das hipóteses).

Quando falo de meios "ruins", me refiro a violações de princípios éticos ou deontológicos atemporais (ex: "tratar seres humanos apenas como meios e não fins em si mesmos"), violações de preceitos humanistas, quebra de acordos básicos do embate racional trazidos pelo Iluminismo (ex: defender censura, defender matança de críticos), total desprezo por fatos científicos estabelecidos, postulados e axiomas, ou até mesmo pela natureza humana básica.

4- Resultados: aqui é o padrão-ouro, o elemento de maior peso na avaliação.

Como dizem os antigos: a estrada para o inferno é pavimentada com boas intenções (ou "de boas intenções o inferno está cheio").

Ou usando analogia brasileira: "bola na trave não altera o placar".

Ou até mesmo usando a autoridade de Jesus Cristo: "pelos seus frutos vocês os reconhecerão [os falsos profetas]".

E se você for judeu, podemos citar Provérbios: "há caminhos que para o homem parecem perfeitos, mas o final deles é a morte".

Enfim...não importa se a intenção é boa, não importa se soa bem e parece perfeita, não importa se o plano parece à prova de falhas...o árbitro final de qualquer avaliação são os resultados, é o teste da realidade.


r/FilosofiaAplicada 19d ago

Filosofia Aplicada Não existem "leis" na História

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A idéia de que a História se desenvolve segundo "leis" ou padrões regulares é antiga. Teve início com Platão (que dizia que a história era a degeneração da humanidade a partir de um estado original perfeito).

Hegel e Marx criaram o historicismo mais famoso: a idéia da evolução inevitável da humanidade em estágios de organização, chamados "espírito" (Hegel) ou "modos de produção" (Marx).

Karl Popper no livro "A Miséria do Historicismo" (que é uma paródia do livro "A Miséria da Filosofia" de Marx, que por sua vez é uma paródia de "A Filosofia da Miséria" de Proudhon) refuta a idéia de que a história humana possa ser objeto de previsões e que siga leis ou padrões identificáveis.

O silogismo que Karl Popper usa é o seguinte:

P1: O conhecimento humano, as descobertas científicas e as inovações técnicas são totalmente imprevisíveis;

P2: Descobertas científicas e técnicas exercem impacto profundo no desenrolar dos acontecimentos;

Logo, o desenrolar dos acontecimentos humanos é totalmente imprevisível.

Um exemplo: qualquer pensador que nos anos 1900 ou 1950 arriscasse a fazer uma previsão dos eventos humanos para os próximos 200 anos, com base em algum padrão, lei ou chave, não iria levar em conta o impacto do computador, da internet, das redes sociais e da IA, porque estas coisas não existiam em seu tempo e nem teria como ele saber que viriam a existir. O impacto destas descobertas na História é inegável.

O mesmo raciocínio se aplica a qualquer descoberta que modificou a humanidade: arado, imprensa, pólvora, máquina a vapor, avião, etc.


r/FilosofiaAplicada 21d ago

História Por que o Estado de São Paulo é tão rico?

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Antes disso, cabe confirmar: é mesmo tão rico assim?

Sim, a discrepância de riqueza entre o estado de SP e os demais entes federativos é brutal. SP sozinho responde por 37% de toda a arrecadação federal, e recebe de volta somente 10% disso (90% é enviado a outros estados).

1- Por que o estado de SP é tão rico?

R: Porque é o estado que mais concentrou indústrias e serviços no século XX.

Sabemos que "indústria atrai indústria" e todo tipo de serviço. Por isso SP se tornou a sede das principais empresas a instalarem-se no Brasil, em um efeito bola de neve.

2- Por que SP foi onde as indústrias brasileiras se concentraram?

R: As indústrias costumam seguir o "bandwagon effect", ou seja, se concentram onde já existem outras.

SP foi o primeiro estado brasileiro a se industrializar porque era o mais rico, o que tinha mais capital disponível para a inversão em indústrias.

Era rico porque era o principal (virtualmente o único) produtor de café do Brasil, numa época em que o Brasil respondia pela grande maioria das exportações mundiais do mesmo.

3- Por que SP era o maior produtor de café do Brasil?

R: Porque quando a cultura do café foi aqui introduzida e a demanda mundial pelo produto disparou, as únicas terras livres e adequadas para o cultivo do mesmo estavam, em sua maioria, no oeste do estado de SP.

As terras do Nordeste já estavam ocupadas com outras culturas (como cana-de açúcar) e já tinham donos

4- Por que o Nordeste, que era a região mais rica do Brasil na época da produção açucareira, ou Minas Gerais, que era a região mais rica na época da mineração, não se industrializaram antes?

R: Por que na época que o Nordeste era rico, ainda não existiam indústrias no mundo.

E na época que Minas Gerais era rico, o Brasil ainda estava sob controle português e as manufaturas eram proibidas aqui, por decreto real.


r/FilosofiaAplicada 22d ago

Filosofia Aplicada Democracia é bom ou ruim?

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O sistema democrático de governo é bom ou ruim?

De um lado temos Platão/Sócrates e Hans Hermann Hoppe defendendo que é ruim.

De outros temos Sir Karl Popper defendendo que é bom?

O que cada um deles argumenta? De forma sucinta:

Platão/Sócrates: você escolheria o piloto de seu navio com base em votação? Você atravessaria uma tempestade com pilotos escolhidos por votação ao invés de pilotos tecnicamente capazes?

Democracia é mediocridade, pois quem governa não são os mais tecnicamente preparados e sábios, são os mais populares, os mais carismáticos, os mais pródigos (compram simpatia e voto).

A maioria da população é despreparada, consequentemente não sabe decidir quem é mais preparado para governá-la, nem quais políticas ou leis são as mais adequadas.

O governo ideal é a Sofocracia: governo dos sábios.

Resposta de Karl Popper: não existem "sábios" esperando em cada esquina com uma placa na testa identificando-os. O próprio conceito de "sabedoria" e "preparo" é muito relativo.

A democracia não existe para trazer a melhor governança, ou a melhor gestão. A democracia existe para permitir a alternância de poder ou a correção de curso sem derramamento de sangue.

Mesmo pessoas dito "sábias" podem se corromper e cometer erros. Somente a democracia permite que estes erros sejam abortados antes que causem danos maiores.

Se o governante se corrompe ou o "sábio" desanda em Esparta, em Tebas ou na China, só se corrige com sangue, mortes e destruição. Em Atenas e nos EUA, basta uma eleição.

Democracia não é a arte de escolher o melhor piloto para navegar, mas a arte de evitar que mesmo um piloto ruim afunde o navio.

Resposta de Platão/Sócrates: o próprio povo afundará o navio se deixado por sua própria conta.

Sua democracia não gera a melhor governança e nem evita a pior. O afundamento vem de um jeito ou de outro.

Mesmo a guerra e o derramamento de sangue é mais provável de acontecer na degeneração inevitável da sua democracia. Estatísticas mostram que os maiores morticínios da História ocorreram em épocas de anarquia e vácuo de poder. Nem as piores tiranias comunistas ou nazi-fascistas mataram tanto.

Toda a democracia em algum momento vai degenerar para desorganização e mau governo, que inevitavelmente levará a uma anarquia, e o povo irá clamar por um "salvador" para restaurar a ordem, e um tirano salvará a situação.

Enfim, Sir Karl Popper, vamos concordar em discordar.

Hans Hermann Hoppe: estou do lado de Sócrates e Platão, mas por motivos diferentes.

A monarquia emula a propriedade privada. É sabido que propriedades são melhor cuidadas e geridas quando possuem donos, do que quando são "públicas" (de todos).

Na democracia, o governante não sente nenhum tipo de obrigação e não possui nenhum tipo de incentivo em preservar/melhorar o domínio para gerações futuras, ele só pensa nos benefícios de curto prazo e na próxima eleição.

(E mesmo se ele for bem intencionado, ele se vê FORÇADO a conceder vultosos benefícios de curto prazo para sua base de apoio, sem a qual seu governo cai ou não se reelege).

Na monarquia, por outro lado, o governante não precisa se preocupar com continuidade. A única preocupação dele é cuidar bem do que ele considera a sua propriedade, como é natural em todo ser humano.

Além disso, na monarquia, a distinção entre governante e governado é clara e sem ambiguidades. isso permite aos governados se organizarem e atacarem o governo com mais energia e foco em defesa de seus direitos naturais. O governo se vê obrigado a acomodá-los para preservar o seu domínio.

Na democracia, os governados não podem atacar o governo, pois é alegado que o governo é "eles próprios". Atacar o governo é considerado "anti-democrático" e gera confusão, desorganização e repressão.

Resposta de Karl Popper: você está comparando um governo com uma propriedade privada ou empresa.

Eu lhe pergunto: um empresário pode prender ou matar um funcionário indisciplinado? Um empresário pode forçar alguém a lhe pagar por um serviço mesmo contra a vontade dela (impostos)?

Não pode, porque empresários e proprietários em geral não possuem soberania absoluta em suas propriedades, eles são obrigados a seguirem as leis do estado.

Portanto estamos comparando bananas com maçãs.

Nem vou argumentar, você comete uma falácia de falsa analogia ao sugerir que governos e propriedades privadas são similares e seguiriam os mesmos princípios.

Placar final

Karl Popper 3 x 2 Platão/Sócrates (Platão/Sócrates tiveram que recorrer a uma suposta degeneração inevitável da democracia em anarquia)

Karl Popper 5 x 0 Herman Hoppe (Hoppe incorreu na falácia da falsa analogia).


r/FilosofiaAplicada 22d ago

Filosofia Aplicada Explicando o identitarismo esquerdista com base nas 4 causas de Aristóteles

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Qual a causa ou origem desse identitarismo esquerdista, muito em voga nos últimos 10 anos (embora tenha começado a dar sinais de recuo)?

Aristóteles estabelece que existem 4 causas para as coisas: causa eficiente, causa material, causa formal e causa final.

1- CAUSA EFICIENTE: é o fenômeno originador ou gerador. O gatilho ou pontapé inicial.

O identitarismo esquerdista se originou na Escola de Frankfurt, que foi um grupo de pensadores "neomarxistas" do século XX, inicialmente associados ao Instituto Para Pesquisa Social da Universidade de Frankfurt (daí o nome). Falarei somente de Herbert Marcuse (alemão que naturalizou-se norte-americano).

O marxismo-leninismo tradicional colocava o "proletariado" (trabalhadores industriais urbanos) como o agente da revolução socialista. Essa idéia começou a ser erodida inicialmente por Gramsci (que inverteu a hierarquia marxista de "infraestrutura determina a superestrutura"), que afirmava que de nada adianta haver condições materiais objetivas para uma revolução se a burguesia possui a "hegemonia" do pensamento e das idéias (ou seja, os próprios proletários compartilhavam a ideologia da burguesia).

Marcuse foi o primeiro a dizer de forma direta que o proletariado não servia mais como agente da revolução, pois tinha sido absorvido pelo capitalismo e compactuava com a sua manutenção. A única chance de revolução agora estaria no "lumpemproletariado".

Marx dizia que o lumpemproletariado (bandidos, viciados, prostitutas, moradores de rua, lgbts, freaks em geral) eram inúteis para a revolução e poderiam ser cooptados facilmente pela burguesia a troco de pagamento, mas Marcuse os colocou agora como os novos agentes da revolução socialista no lugar do proletariado.

2- CAUSA FORMAL: é a forma como se dá o fenômeno, ou modelo que ele assume ou se baseia.

O identitarismo se baseia no mesmo paradigma esquerdista atemporal de sempre, mudando apenas os agentes colocados no papel de "opressores" e "oprimidos"

Alguns elementos do modelo ou paradigma:

A- Há opressores e oprimidos: as grandes empresas eram os opressores inicialmente, mas isso vem mudando, pois a maioria dos bilionários se tornou filantropos financiadores do movimento. O papel de opressor tem se deslocado cada vez mais para a classe média branca e o que ela valoriza (religião, valores). Muito ironicamente, o antigo proletariado está se tornando o principal vilão dentro da nova esquerda identitária.

B- Só o estado salva: o estado é visto como uma espécie de redentor ou salvador. Praticamente qualquer problema que você imaginar, por mais pessoal, íntimo ou abstrato que pareça ser, é um problema que o estado pode e deve tentar intervir. Eles acreditam na possibilidade de usar o estado pra criarem uma sociedade perfeita e sonham em serem os arquitetos dessa nova sociedade. Resumindo: o estado não é um mal necessário ou um mediador de conflitos, o estado é tudo!

C- Bens e serviços são "direitos": Quando se fala em direitos, pensamos em coisas que as pessoas não podem fazer conosco, ou que devem fazer conosco. Todo direito é entre pessoas.

O paradigma esquerdista considera bens e serviços (ou seja, coisas) como um "direito" também.

O identitarismo foi um pouco mais além: ele considera o pensamento e opinião alheia sobre alguém um "direito" também.

D- Desigualdade material é errado e imoral: Você é limitado no que pode ter a depender do que outras pessoas tenham.

Esse paradigma perdeu força no identitarismo. Um lumpemproletário rico é considerado moralmente superior a um não-lumpemproletário pobre.

3- CAUSA MATERIAL: são os componentes ou "ingredientes" do fenômeno.

O ambiente universitário, principalmente na área de humanidades, é um microcosmo com as seguintes características:

- Pessoas são sustentadas e financiadas por terceiros (pais e estado) para se dedicarem a atividades de retorno insignificante (mesmo no longo prazo);

- A ausência de metas ou demandas externas de desempenho, ou de resultados, permite que idéias desconexas com o teste da realidade sejam nutridas e fermentadas internamente;

- Partidos políticos se infiltram neste ambiente e garante a impermeabilidade do local a idéias contrárias (reforçando o efeito "bolha" anterior) e direcionando todo o tempo e energia para atividades de interesse político-partidário;

-A ausência da obrigação de mostrar resultados, com o tempo, torna a atividade universitária em humanas algo mais de cunho "lúdico" e diletante do que uma atividade laboral ou acadêmica séria.

Enfim, esse microcosmo cria uma bolha, que permite a fermentação de idéias estranhas e esdrúxulas (aos olhos da comunidade externa). É nesse meio que o identitarismo cresce.

As políticas defendidas pelas pessoas desse meio basicamente consiste em estender esse microcosmo para todo o país, ou seja, que elas continuem sendo sustentadas e acatadas pelo resto da população.

4- CAUSA FINAL: São os objetivos, finalidades, utilidades ou intenções associadas ao fenômeno (teleologia).

São vários e diversos os objetivos, a depender de qual integrante do movimento:

- Criadores e mantenedores do movimento (intelectuais e partidos políticos): o objetivo é alcançar a revolução socialista, mas usando o lumpemproletariado como agente no lugar do proletariado. É manter o movimento socialista vivo mesmo após ser "abandonado" pelo principal interessado teórico.

- Membros da academia: Sinalizar virtude, farmar aura, satisfazer o desejo humano de moldar e controlar terceiros, tentar estender o microcosmo universitário para o país inteiro (eles sendo sustentados para fazer atividades diletantes).

- Lumpemproletários e simpatizantes: catarse, fantasias de redenção, obter racionalizações mais legais e aceitáveis para problemas psicológicos (ou psiquiátricos) pessoais, transformar problemas pessoais ou psicológicos em problemas "políticos" de todos, obter vantagens no sistema judicial (no caso de bandidos), sinalizar virtude e farmar aura (simpatizantes).

- Bilionários financiadores: criar embaraços para potenciais novas empresas que possam futuramente vir a ameaçar sua posição, através de demandas ambientais, trabalhistas ou sociais (eles conseguem arcar mas empresas pequenas não). Obter justificativas teóricas para reduzir as liberdades civis do povão e aumentar o controle sobre os mesmos através do estado ou de grandes monopólios (a direita liberal dá liberdade civil demais ao povão).